04 março, 2014

City break na capital

Lisboa é uma cidade em constante crescimento gastronómico com várias novidades no campo da restauração a acompanhar o movimento turístico.
Um city break em Lisboa possibilitou uma visita a algumas dessas novidades.

O Prego da Peixaria foi uma agradável surpresa, com um ambiente descontraído e uma oferta interessante que foge um pouco à moda das hamburguerias. Da carta constam 7 pregos, 4 opções fora dos pregos, 2 tipos de batatas fritas, as Marilyn Monroe e as Chips de Batata Doce e 4 sobremesas. A minha escolha recaíu sobre o Burguer de Salmão e Choco, com algas em bolo do caco de tinta de choco e umas Chips. O Burguer muito saboroso e com uma boa conjugação de sabores. Nas sobremesas fui surpreendida pela originalidade na escolha de um shot de cerveja para acompanhar uma queijada, o que se revelou uma interessante combinação, ao contrário das minhas expectativas.

Outra novidade é o renovado Mercado de Campo de Ourique, um projecto que parece ter trazido vida a este bairro. No mesmo espaço estão dispostas 16 tasquinhas gourmet que interagem com as bancas tradicionais do mercado. Entre as tasquinhas gourmet destaque para Atalho, uma das mais concorridas, a Frigideira de Bairro, um conceito desenvolvido pelo mesmo grupo do Prego da Peixaria e o 2 à Esquina, que apresenta uma grande variedade de petiscos bem portugueses. Com uma grande afluência de clientes, a oferta abrange todos os gostos e é o espaço ideal para um almoço tardio, uma bebida ao final do dia ou um jantar diferente.

Apesar de já ter conhecido a Pekaria 100 Maneiras, a padaria do Chef Lujbomir Stanisic, junto ao seu restaurante Bistro 100 Maneiras, aproveitei a oportunidade para um almoço diferente onde provei algumas das iguarias disponíveis: empada de caça, burek de espinafres e queijo e bola de carnes e queijo. Foi pena não estar disponível a sandes de cabrito assado que provei na última visita e que achei óptima.

Rua da Escola Politécnica, nº 40, Lisboa 

Rua Coelho da Rocha, Lisboa

Pekaria 100 Maneiras
Largo da Trindade, 9 Lisboa

09 fevereiro, 2014

Quando chove lá fora


E de dentro do baú saiu este texto...
 
"É Inverno, o dia está cinzento e chuvoso, e como qualquer domingo que se preze em minha casa, as refeições fazem-se tarde, respeitando um despertar tardio e uma moleza generalizada característica do fim-de-semana. São normalmente refeições de elaboração demorada, com recurso muitas vezes a receitas novas devido ao gosto pela culinária e por novos sabores ou combinações de sabores.
Desta vez a receita não era nova, bem velhinha até...Papas de milho ou, como é talvez mais conhecida, Xarém. Para mim serão sempre Papas de milho, pois foi por este nome que sempre as conheci e têm um sabor um pouco diferente do Xarém que provei em restaurantes. Na verdade estas diferenças devem-se ao facto de, apesar de ser um prato tipicamente algarvio, ser preparado nesta região de diferentes formas e recorrendo a diferentes ingredientes.
Tendo como ingrediente principal a farinha de milho, a receita passa de geração em geração.
Apesar de simples, este é prato reconfortante, não só para o estômago como para o espírito. Associo-o essencialmente à família e isso faz-me sentir bem.
Para além de satisfazer uma necessidade fisiológica, uma vez que a fome já se fazia sentir, esta refeição constituiu para mim um momento de prazer, associado não só a um prato “tradicional” como também a uma refeição realizada no conforto do lar na companhia da família."

03 fevereiro, 2014

Quando cozinhar é mais que um sonho

Encontrei no blog do restaurante brasileiro Maní Manioca um fabuloso texto de Fernanda Valdívia que não pude deixar de partilhar...


"Tem alguma coisa subjetiva sim, que brota num instante incontrolável, de forma menos racional ainda, se desenrola por meios instáveis e consegue chegar vitorioso do outro lado. O momento em que um cozinheiro se depara pela primeira vez com uma ideia, e dias depois, o momento em que o cliente se depara com essa mesma ideia em um prato, são cúmplices de sentimento. Estava lá um cozinheiro sentado ao pé da janela, dia frio, dia de folga, pernas doloridas descansando sob uma xícara de chá entre as mãos. Cozinhar é encontrar-se com si próprio, em silêncio. “É preciso estar presente naquilo que faz, sabe? Na cozinha, a presença é a diferença. Se você está, sai um prato, se não está, sai completamente outra coisa, do mesmo prato” Helena.
Havia um sabor destacado no serviço da noite anterior, guardado na memória para ser explorado no dia seguinte, um sabor danado que coçava a língua logo cedo ao despertar. Havia uma manhã inteira estendendo um tapete felpudo de reflexão onde se rolar com esse sabor. “Com abóbora? Não sei se tão doce assim, talvez mandioquinha. Coentro cairia bem. Chega de reduções, chega de manuseio. Um frescor, um pouco de brasa e limão.” A inquietação, o vulto do destino na ebulição do pensamento e o prazer do caminho, disfarçado na angústia de descobri-lo. É um segredo que o cozinheiro leva com ele por dias, e se diverte tentando reconhece-lo em pedaços da rotina, marcha um prato que leva tapioca, experimenta uma colherada do que sobrou na panela, associa ao seu segredo e reformula o caminho. Até que finalmente o bicho vai ganhando forma, começa a aparecer em testes, vai devolvendo o resultado da explosão entre ideia e matéria de forma ainda mais inédita. E a execução, levada à exaustão, se consolida. Entra para o cardápio, é desmembrada e distribuída pelos cozinheiros, ganha vida própria e apelido na cozinha, “marcha moqueca!”, e pela primeira vez desbrava o salão.
O cozinheiro espia da boqueta para acompanhar a reação e reza para ser alguém disposto a receber um sonho. O restaurante não é feito de sonhos, muito menos de sonhadores, mas a criação se alimenta desses encontros lúdicos. A conversa se interrompe, o casal observa o prato, levam o garfo à boca, mastigam alguns segundos e se olham sobressaltados. O cozinheiro sorri de dentro da cozinha vitorioso por ver seu momento de intimidade devidamente representado naquele prato. É o único a entender o que significa aquele olhar curioso. Como se um escritor pudesse presenciar o deleite de seu leitor no instante justo, e pagasse o preço de ver seu livro se dissolver em saliva."



29 janeiro, 2014

Fashion in the plate

"Cookery has become a noble art, a noble science"  
(Robert Burton, escritor)

Com a cozinha a afastar-se cada vez mais da sua mera função de fornecedora de nutrientes e a tornar-se num material creativo, cada vez mais artístico será possivel falar em arte na cozinha? E será possível combiná-la com a moda na execução de um prato?

O livro Cooking Couture nasce exactamente dessa combinação. 
O Chef Matias Perdomo (restaurante Al Pont de Ferr em Milão) tenta captar a essência de 11 designers de moda - Ennio Capasa, Angela Missoni, Agatha Ruiz de la Prada, Dean and Dan Caten, Prada, Giorgio Armani, Anna Molinari, Donatella Versace, Marni, Dolce and Gabbana - e entrar no mundo da moda através da criação de pratos adaptados a cada marca, dialogando com o estilo e a elegância.

Matias's dish for Blumarine

Matias's dish for Marni

Este é um livro com imagens lindas que dão a conhecer a moda ou a estética na cozinha numa combinação de sabores, cores e tecidos.


Cooking Couture (Marsilio and Amazonbuyvip)
by Gisella Borioli, Giovanni Gastel, Matias Perdomo

23 janeiro, 2014

Num antigo estábulo no Minho

"De um estábulo do séc.XVIII e da sã loucura de um casal nasce o Ferrugem, um restaurante que tem como ingredientes a hospitalidade e as raízes populares da cozinha portuguesa, condimentados com criatividade e inovação." (Ementa Ferrugem)

Tomei conhecimento do Ferrugem depois de Dalila e Renato Cunha terem apresentado o Pastel (de bacalhau) com nata no Peixe em Lisboa e o interesse na visita ao restaurante surgiu numa visita ao Mercado do Bom Sucesso no Porto onde o Ferrugem marca presença com alguns dos seus produtos como o famoso pastel (de bacalhau) com nata e a manteiga de azeite, ambos produtos registados.
O restaurante, localizado num antigo estábulo, é um espaço pequeno e acolhedor, com uma lareira acesa ao fundo da sala, sempre agradável nestes dias frios.
Da ementa apenas constam menus: o da estação, degustação em 4 momentos, degustação em 6 momentos e júnior.
Optou-se pelo Menu da Estação que possibilitava a escolha em 3 Momentos, com quatro opções para cada momento.
Foi servido como "Preludio", pão caseiro e a manteiga de azeite, já provada no Porto. Este é um produto muito interessante que vem numa bisnaga imitando as antigas pastas de dentes portuguesas Couto.
Nas entradas experimentou-se o "caviar português (ovas de sardinha, caviares de vinagre, tomate, broa de milho, ervas finas e espuma de azeite)" e "entre o panadinho e o molho verde, venha o polvo e escolha!". A primeira, leve com aromas frescos e um empretamento muito apelativo, feito numa lata de conserva e decorado com coloridas flores comestíveis e a segunda um lolipop de polvo com maionese de ervas aromáticas, saboroso, notando-se os troços de polvo mas com o sabor da fritura um pouco carregado.
Em seguida foi servida a "Saudação dos Chefes" "o caldo verde e a broa de milho tostada com azeite" que consistiu num creme verde acompanhado de uma tosta de broa de milho, um prato reconfortante.
No segundo momento optou-se pelas "lascas de bacalhau com azeite transmontano e coral de negrinha de freixo, legumes salteados e crocante de grão de bico com chouriço" e pela "costela mendinha e a falsa batata a murro num prado de grelos e outros legumes", ambos muito bem confeccionados e saborosos.
Quanto a sobremesas as escolhas recairam sobre o clássico "pêra rocha do oeste em geleia de vinho do porto sobre tarte de queijo fresco" e uma interpretação da doçaria tradicional do baixo minho num "tributo ao abade de priscos", a qual se revelou de uma doçura extrema como ditam as regras de doçaria tradicional.


A experiência gastronómica foi muito agradável e apesar da sua localização, numa aldeia do Minho afastado dos grandes centros populacionais, este é um restaurante que vale a pena visitar. O ambiente é descontraído e nota-se o interesse pelos produtos da região respeitando a sazonalidade. Destaque ainda para a simpática visita que Renato Cunha faz a cada mesa, cumprimentando os seus clientes.

Ferrugem
Rua das pedrinhas, 32, 4770-379 Portela Vila Nova de Famalicão
tel. 252 911 700
(A forma mais fácil de aqui chegar são mesmo as indicações promenorizadas que são fornecidas no site.) 

20 janeiro, 2014

Tapas 24

Foi no Tapas 24 que tive a oportunidade de provar os cogumelos tão apreciados em terras espanholas, os Rovellons. Este cogumelo é também encontrado em serras em Portugal no Outono, mas é em Espanha que se encontram com bastante frequência, crus em mercados ou confeccionados em bares de tapas ou restaurantes.
Depois de encontrar uma grande quantidade à venda no famoso mercado de Barcelona La Boqueria, pude prová-los numa tapa cobertos por um molho de escabeche no conhecido bar de tapas do Chef Carles Abellan, chef responsável por vários restaurantes na cidade, entre eles o Comerç 24 com 1 estrela Michelin e o Bravo 24, localizado no emblemático Hotel W pertencente à cadeia Starwood.
Para além desta tapa, são apresentadas numa ardósia mais algumas sugestões do dia, entre salgados e doces. Todas as restantes opções são apresentadas numa embalagem de papel para os talheres, que tal como as sugestões do dia são difíceis de compreender na totalidade pois apenas estão escritas em Catalão, o que leva a um jogo divertido com a expectativa gerada por algumas das tapas pedidas até que cheguem à mesa.
Provei ainda o clássico Bikini 24, uma tosta muito de fina cortada em pequenos triangulos com recheio de queijo e fiambre com trufa negra e para acompanhar, uma cerveja Moritz, de Barcelona.
O espaço não sendo desagradável é pequeno, ainda mais para a grande afluência que se regista e durante todo o tempo em que lá estive persistiu uma fila de clientes que esperavam lugar. Também por isso o serviço é rápido (talvez rápido de mais até), e os empregados dão pouco espaço para perguntas sobre os pratos.
Com uma localização priveligiada e produtos de excelência vale a pena experimentar apesar dos preços, demasiado elevados.

Calle Deputación 269 - Barcelona
Horário: 2a a Sábado das 9h às 24h

19 janeiro, 2014

Sol e tapas em Salamanca

Foi um dia de sol entre um inicio de ano chuvoso que motivou uma visita a Salamanca, um municipio da comunidade autónoma de Castela e Leão cujo centro histórico é Património da Humanidade desde 1988.
A Casa de Comidas Montero foi o espaço escolhido para um almoço tardio como ditam os costumes espanhois. Este é um estabelecimento que agrega no mesmo espaço restaurante, no piso superior, e bar de tapas no piso inferior. A Carta de tapas está dividida em tapas quentes (13 opções), tapas frias (6 opções) e tapas doces (5 opções) e existe ainda a tapa do dia escrita num quadro de ardósia numa das paredes.
Para iniciar a refeição optou-se pela tapa fria de jamón ibérico de bellota servido sobre uma torrada com molho de tomate, não fosse este um dos produtos mais afamados da região (e com razão). Em seguida a escolha recaiu sobre as tapas quentes: "Morcilla de arroz, compota de manzana al cardamomo y foie fresco", Caldero de arroz guisado con rabo de toro estofado al vino tinto", "Chipirones en un estofado de salsa de sus tintas y fideos de arroz fritos" e a tapa do dia "Bacalao al pil-pil".
Tudo foi acompanhado por um copo de vinho da Ribera del Duero que se conjugou na perfeição com a refeição. 
Todas as tapas estavam muito bem elaboradas conjugando sabores tradicionais com um toque de inovação. O espaço é acolhedor e o serviço simpático e agradável, convidando a uma refeição prolongada, beneficiando da calma de um dia de semana de Inverno. Uma excelente relação qualidade/preço numa casa em que o único ponto negativo a assinalar é mesmo o pão, um produto espanhol que não consigo apreciar.
Salamanca tem ainda muitos outros estabelecimentos de restauração que seguem as mesmas linhas da Casa de Comidas Montero e que certamente merecem ser descobertos, constituindo um bom motivo para voltar.
Hasta luego Salamanca!

Casa de Comidas Montero
Plaza de Corrillo, 12 - Salamanca